Pagando a Língua

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“Tô mortinha de vergonha por confessar uma coisa dessas. Mas já que comecei, agora vai: pra mim, é muito mais fácil ler um manual de instruções em inglês do que em português de Portugal.

Tá pensando que o meu inglês é magnífico ou que eu não gosto do português de além-mar? Nada disso. E muito pelo contrário. O que acontece é que eu não consigo ser fluente numa leitura técnica em que algumas palavras tão familiares são usadas com um sentido tão diferente.

A palavra carregar, por exemplo. Aposto que você logo pensou em transportar alguma coisa pra lá ou pra cá. Pois enganou-se redondamente, porque o carregar de manual em português de Portugal quer dizer acionar, apertar. E eu só descobri isso porque no texto em inglês tava escrito “press”. E eu só fui consultar o texto em inglês porque, pelo menos no Brasil, os únicos botões que a gente costuma carregar com tanta naturalidade são os botões da roupa. E ainda assim não é costume falar disso.

Outra palavra que me soa esquisita é telecomando. Pra mim, telecomando tá muito mais pra comando telepático do que pra controle remoto. E aí, convenhamos, “remote” se aproxima muito mais, embora o apelido nacional do controle remoto seja apenas “controle”.

E tem, ainda, a palavra leitor. Cada vez que leio “leitor” logo penso em você. Ou em mim. Porque, por aqui, um leitor puro e simples só pode ser mesmo um de nós.

E aí o manual começa: “Parabéns por ter adquirido seu leitor”. Muito obrigada! Deus sabe o quanto eu tenho me esforçado pra isso, e o quanto eu fiquei feliz quando soube que o meu número de leitores cresceu em 33,33%. Ou seja: antes eram três, e agora já são quatro.

Mas aí o manual me adverte: “Para evitar o risco de incêndio ou choque eléctrico, não exponha seu leitor à chuva e nem à umidade.” E também: “Se deixar cair algum objecto sólido ou entornar líquidos sobre o seu leitor, desligue-o imediatamente e leve-o para ser reparado por pessoal especializado”. E ainda: “Não coloque o seu leitor numa posição inclinada ou instável”. E a pior de todas as advertências: “Mantenha os cartões de crédito com sistema de código magnético longe do seu leitor”.

Calma. Muita calma nessa hora. Em primeiro lugar, porque eu nunca vi leitor brasileiro nenhum que pegue fogo ao tomar chuva. Depois, porque eu prometo não fazer nenhuma dessas horríveis judiações aí com você. E nem comigo. Até porque elas foram receitadas para um outro tipo de leitor que, pelo que eu pude entender, não é só o leitor de CD ou o toca-fitas ou o rádio, mas sim o aparelho de som inteirinho. E fui conferir no texto em inglês, que me confirmou que leitor, pelo menos pra esse manual, é o “player”. Ou o “tocador” que pode ser de CDs, de fitas, de rádio ou de todos eles juntos.
E eu, que ainda na semana passada escrevi o Nó na Língua pra combater certos exageros, agora estou pagando a minha própria, ao colocar o dicionário de inglês entre o português claro daqui e o português claro de lá. Pode?”

fonte: Roseli Pereira

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