Computo, me Adequo, Expludo

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Verbo defectivo é aquele que tem “defeitos”, falhas na conjugação. Ou seja, sua conjugação não é completa. Isso acontece principalmente na primeira pessoa do presente – ninguém diz, por exemplo, ‘eu falo’ e ‘paro’ referindo-se aos verbos falir e parir. Ou: eu não *fedo (feder), eu *abulo ou *abolo (abolir). Nem se diz *coluro ou *coloro, mas se usa alguma locução: dou colorido, dou cores, faço um colorido etc. São formas inexistentes mesmo, e vamos seguindo sem elas. Entretanto, algumas dessas faltas se devem a uma questão mais propriamente estética do que técnica. É o caso de computar, explodir e adequar.

EXPLODIR não é verbo defectivo em si. Ele é conjugado conforme o verbo dormir, segundo dicionários especializados; portanto, pode-se dizer “ele explode, eu expludo, ele que expluda o balão”. Já vi expludo em livros editados em Portugal, numa boa. Aqui, depois que o ex-presidente Figueiredo falou (corretamente) “expludo”, criou-se o estigma e a má reputação do verbo, como se ele devesse ter explodido de outra forma: “Ele que se exploda!”

COMPUTAR não é tampouco verbo defectivo. Existem e são usadas formas como “eu computo, ele computa os dados diariamente; computa isso para mim?” Não falar “computa” seria talvez uma opção pessoal por causa da sonoridade indigesta para alguns. O dicionário Aurélio não traz o presente “computo, computas, computa”, como faz o Houaiss, que registra todas as formas. Mas devemos lembrar que as palavras existem não porque os dicionários querem que elas existam. É o contrário: os dicionários devem espelhar o vocabulário existente.

ADEQUAR é cada vez mais usado nas pessoas do singular e na terceira do plural do presente do indicativo e mesmo no subjuntivo, a despeito de toda a recomendação em sentido contrário. A população faz a língua – leis neste caso são inócuas, a não ser para a ortografia. Para exemplificar,veja esas duas frases recentemente publicadas:

E ainda há um agravante, no caso específico dos leitores brasileiros, que é a rabugice de ele [Saramago] não permitir que se adeque sua obra ao português brasileiro. [revista Istoé]

Esperamos que todos os municípios se adequem à nova lei. [jornal]

Nem sempre substituir “adequar” por “adaptar” resolve a pendenga, pois o segundo verbo tem nuances diferentes do primeiro, e às vezes o redator precisa usar os dois termos no mesmo texto até para evitar repetições. Então resta a dúvida: qual a pronúncia quando o uso é inevitável? A melhor pronúncia é aquela que tem o acento tônico no E, e que neste caso levaria acento agudo, conforme estabelecem as regras ortográficas:

Infelizmente eu não me adéquo a estas circunstâncias.

Diz o instrutor que o menino, ainda que tenha boa vontade, não se adéqua a nada.

Pessoas flexíveis e maduras se adéquam facilmente às novas situações.

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