Página em Branco

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Escrever é um ato solitário. Indivisível. Silencioso. Carrega o peso do dizer quando algumas vezes não se deseja dizer nada. Mas o papel em branco, tímido e tirânico, pede que o preencha, com palavras, frases, parágrafos. Nunca sei o que rabiscar nessa página desértica, quase agressiva em sua castidade, distante das inquietações, arredia a um pensamento, o meu, que não se fixa em lugar algum. Sobretudo em tempo algum. Ah!, o tempo que me escapa feito um foragido, a recear o pacto da cumplicidade! Ou será o contrário? Como saberei eu definir esse fantasma cronológico se não detenho o instante que é o agora? Depois, já passou, passou, passou… Vigio o relógio: ele marca o dia, a hora, o minuto, o segundo, os átimos de segundo… O que posso fazer para saber se ele faz parte de mim? Talvez faça, urge entender em profundeza a sua efemeridade.
Há o sentimento do mundo de que fala Drummond, há o texto hesitante, enaltecido por Marguerite Yourcenar, há a versificação filosófica de Fernando Pessoa… e entre dizeres diferentes, o ato da dúvida permanece tão imperativo que não aplaca os meus paradoxos – só conheço a verdade dos paradoxos. Por que não me conformo com a palavra solta, em liberdade, apenas revelando o sinal ortográfico da palavra? Afinal Clarice Lispector frisava que a palavra deve se parecer com a palavra.

Já não se torna suficiente essa digna semelhança? Se a palavra é apenas a palavra, que ganhe a autonomia de ser única, independente, sem fúteis adereços. Tentarei esquecer os significados e os significantes e aceitarei a sua pureza sem a ela adicionar rótulos cerceantes. Estarei certa ou errada? O que importa esse dualismo cartesiano se o que quero resvala para o vazio de um vocábulo com letras, com signos apócrifos e desconexos? Recordo que meu filho, quando pequeno, ao ler um texto mais complexo, reagia: são palavras sem sentido. Os ecos da sua mensagem me chegam até então e, ao avivar a lembrança, sinto-me travada na difícil tarefa de narrar. Vou e volto em uma trajetória errante. Todos os caminhos acabam por desaguar na foz do mar e as águas lavam as palavras com a volúpia de dragá-las no seu poder avassalador e transitório.
O encontro do tempo e o ritmo das águas se irmanam na mesma exígua substância. Afinam-se na sintonia do ir e do não vir. Evadem-se da nossa minguada capacidade de apreensão. E, no entanto, eu espio o rio e não espio o tempo. Um é concreto, o outro, abstrato. Ambos passageiros, orgulhosos da sua contingencialidade. O tempo, sinto-o, o rio, dele retenho as águas e aprisiono-as de modo a eternizá-las. Perdidas no estatismo da represa, acode-me a impressão de sabê-las próximas às minhas mãos. Mas falta-lhes o elo da vida: a correnteza. Desisto de tentativas vãs. Aceito o que me sugere intensa divagação: o instantâneo do tempo, das águas e de tudo que me cerca. Não, engano-me. A palavra tem perenidade, essa, sim, inscreve-se em pedras graníticas. Em caráter “eterno”.
O meu imaginário se acovarda diante da força que a palavra adquire. Temo arranhá-la com vulgaridades, sem ofertar-lhe a beleza que merece, aquela arte mágica e mística que a poucos toca. Desperdiço palavras quando deveria ficar calada, apegada à discrição dos que evitam pronunciá-las, poupando-lhes atitudes mesquinhas. Confesso: o papel em branco não merece ser violado, soberano na dimensão angelical de ser apenas um papel em branco. Livre dos inúteis rabiscos, adquire a aura do sagrado e roga por respeito.
Não ousarei macular a excelsa virgindade. Que a palavra não me acuse com palavras outras. O papel preserva a sua identidade ao evitar escrituras à toa. A idéia da infinitude da palavra pronunciada ou escrita me apavora, e estou certa de que, algum dia, serei capaz de gritá-la, no momento em que minha garganta não mais suportar a mudez do abafo. Até lá, manter-me-ei por trás da cortina, a mirar o que se desenha para além de mim. Ou melhor: o que se desenha dentro de mim. As circunstâncias externas se colam às internas e, ambas, na simbiose de uma possível harmonia, revelarão segredos capazes de traduzir o muito do que posso dizer em certos momentos levianos.
Que a irreversibilidade do tempo e das águas em correnteza transforme o que eu vejo e o que eu sinto em palavras mais duradouras, palavras com sentido, sem a arrogância de ludibriar a criança que era meu filho. Em tom de promessa, aceito o desafio de um dia vencer o pânico de escrever.
Por hoje, apenas uma página em branco.

( de Fátima Quintas, membro da Academia Pernambucana de Letras)

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