Internetês versus Língua Culta

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No Brasil, um batalhão de 15 milhões de usuários troca 500 milhões de mensagens por dia por meio do Messenger (MSN), o comunicador instantâneo da Microsoft.

– O brasileiro adere fácil à tecnologia; é um povo muito aberto à comunicação – explica Priscyla Alves, gerente de produtos, comunicação e marketing para Brasil e América do Sul da Microsoft.

O Ibope/NetRatings divulgou em janeiro que o internauta brasileiro continua sendo o campeão mundial da navegação, com uma média de 17 horas e 59 minutos, deixando para trás Estados Unidos, Japão e Austrália. Essa ansiedade do brasileiro por contato já foi alvo de estudo de Anne Kirah, uma antropóloga americana que vive em Paris e ajuda a Microsoft a desenvolver produtos.

Numa de suas pesquisas, Anne conviveu por semanas com famílias de adolescentes brasileiros. Chamou sua atenção a tendência de o interneteiro no Brasil ter, em geral, permissão para sair só uma vez por semana. A antropóloga concluiu que o nosso adolescente usuário do computador faz das ferramentas on-line uma extensão da vida social. Na frente do monitor, marca encontros, mantém viva a emoção do fim de semana e estreita laços com novos amigos.

A linguagem que pontua tal dinâmica social é o internetês. Integrados à tecnologia e com acesso fácil a computadores e conexões de banda larga (62% dos nossos internautas a usam), os jovens buscam respostas rápidas, proximidade com seus interlocutores e nutrem a expectativa de aproveitar cada momento de diversão. A ansiedade por contato teria estimulado, assim, o hábito de escrever mensagens e a busca de novas formas de expressão ligeira e funcional. No pacote, vieram a simplificação da linguagem e a farta eliminação de vogais.

Jargão on-line

Na ponta do teclado, o internetês dá nome a um conjunto de abreviações de sílabas e simplificações de palavras que leva em conta a pronúncia e a eliminação de acentos. De quebra, acrescenta uma leve dose de humor às mensagens on-line. Não o suficiente para evitar inúmeras críticas, como a de que os jovens têm sido induzidos a escrever mal e a de ser um frankenstein de linguagem, excludente e viciada.

Eduardo Martins, autor do Manual de Redação do jornal O Estado de S. Paulo, olha com reservas o fenômeno.

– O aprendizado da escrita depende da memória visual: muita gente escreve uma palavra quando quer lembrar sua grafia. Se bombardeados por diferentes grafias, muitos jovens ainda em formação tenderão à dúvida – alerta.

Formado pelo inglês dos softwares e manuais, por abreviações e símbolos (emoticons), o jargão empresta à escrita a liberdade da fala, com vocabulário e construções gramaticais próprios. Enquanto os textos tradicionais podem ser relidos, repensados, corrigidos, as mensagens em tempo real tendem ao mínimo de caracteres, são mais curtas e dadas com rapidez – o “falante” pode conversar com muita gente ao mesmo tempo. Daí as abreviações não serem etimológicas (“pneumático” vira “pneu”, mas mantém o radical pneu = ar), e sim fonéticas (“aki” = “aqui”).

A falta de acentos e pontuação viria do não-reconhecimento dos sinais por alguns servidores – a mensagem seria destruída ou convertida em símbolos ininteligíveis, não padronizados. Já a expressão das sensações dá lugar aos emoticons ou smileys, em que caracteres digitados fazem a analogia de uma emoção.

O internetês pode não representar uma ameaça ao idioma como no passado a grafia dos telégrafos (“vg” para vírgula) ou o caipirês de Chico Bento, personagem de Mauricio de Sousa, não o fizeram. Sírio Possenti, professor de lingüística da Unicamp, assegura que não existiria fator de risco.

– Uma coisa é a grafia; outra, a língua. Não há linguagem nova, só técnicas de abreviação no internetês. As soluções gráficas são até interessantes, pois a grafia cortada é a vogal. A palavra “cabeça”, por exemplo, vira “kbça”, e não “aea”. A primeira forma contém os fonemas indispensáveis ao entendimento.

Desigualdade

Linguagem da comunicação on-line, o internetês rompeu os limites a que estava restrito, invadindo a TV (ver quadro na página ao lado) e até a escola. O uso constante de computadores influencia a relação dos alunos com a escola e, em particular, a língua. O estudante da 7a série Victor Santoro Fernandes, de 12 anos, considera mais fácil usar o português padrão quando escreve à mão, não quando digita ao computador.

– A letra q é a que mais escapa. Você já tem os vícios do direcionamento do teclado, mas tento ficar sempre alerta – afirma ele, que conta passar cinco horas por dia ao computador.

Para sua mãe, a dona de casa Magaly Santoro Fernandes, não há problemas em usar linguagens diferentes para comunicar- se, desde que isso não atrapalhe os estudos.

– Ele tira boas notas e sabe quando deve usar a linguagem com os amigos ou tem de usar a norma. Até eu já entendo um pouco quando ele escreve internetês.

A proliferação de um linguajar abreviado tem relação direta com o convívio social de um usuário. Num país em que a maioria da população não usa computador e 3 milhões dos 10 milhões de habitantes de São Paulo nem sabem o que é um caixa eletrônico, a familiaridade com o internetês é diretamente proporcional à inclusão digital. Carlos Eduardo dos Santos, de 13 anos, é aluno da 8ª série da escola estadual Fadlo Haidar, em São Paulo. É o único de uma sala de aula com 42 alunos que tem computador. Diz que, por isso, faz uso do internetês com parcimônia.

– Prefiro escrever do modo tradicional – explica o menino, que gosta do MSN e do Orkut, mas prefere os jogos on-line.

Na escola, nenhum professor de Carlos abordou o assunto nem nunca se ouviu alguém ser alertado sobre o uso do internetês.

“A internet pode ajudar a reduzir os excessos da ortografia, e bem
sabemos que são muitos. Como toda palavra é contextualizada
pelo falante, podemos dispensar muitos acentos. O interneteiro mostra um caminho”

Ataliba de Castilho, professor titular de língua portuguesa
na USP, um dos especialistas que ajudaram a criar o Estação da Luz da Nossa Língua

Outros limites

Cientes de que a linguagem virou febre entre os jovens e parece refletir a desigualdade social, os professores de português levaram a discussão para suas aulas. Ano passado, uma escola particular paulistana, o colégio Humboldt, buscou entender a forma peculiar com que os alunos se comunicavam entre si, distinguindo o momento em que o uso pede grafia tradicional ou jargão.

Os professores organizaram um projeto de intercâmbio com uma escola municipal, a Heitor Penteado. Os alunos do Humboldt escreveram bilhetes, usando internetês, para os alunos do colégio público. Ao receberem os bilhetes, muitos não entenderam nada do que estava escrito.

– Os alunos da escola pública não tinham acesso a computador. Conseguimos mostrar aos nossos alunos que o internetês não é proibido, mas deve ser usado no meio adequado, que é a internet, e nunca na formal, em provas, tarefas escolares e trabalhos – explica Lucy Wenzel, coordenadora pedagógica do ensino fundamental do Humboldt.

As escolas devem ter política clara sobre o assunto para orientar os professores, defende Wenzel.

– Todos os professores devem estar atentos à linguagem adotada pelos alunos e, caso se perceba a confusão entre a grafia da língua portuguesa e o internetês, o professor deve chamar a atenção, alertar para o correto meio para usar essa forma mais informal – diz ela.

Quem não vê com bons olhos a avalanche de abreviações, letras trocadas e neologismos tenta impor barreiras ao uso internético da língua portuguesa. É o caso do Fórum PCS, um site que criou um filtro de palavras que corrige “erros” propositais. O site substitui automaticamente todas as abreviaturas feitas no fórum pelas palavras dicionarizadas e destaca o texto corrigido com uma cor ou em itálico.

Barreiras artificiais

O uso do internetês, no entanto, pode ser muito mais que cacoete de linguagem e expressar a falta de diálogo contemporânea entre o adulto e o adolescente. Essa é, por exemplo, a opinião de Marcelo Tas, apresentador do Saca-Rolha, no Canal 21, e um dos criadores do premiado Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, e da Mesa de Etimologia do Estação da Luz da Nossa Língua.

– Tenho um verdadeiro laboratório em casa, que são três filhos em idades diversas. Penso que todo pai, em vez de temer o internetês, deveria temer a falta de comunicação e afeto com seus filhos. Tem muito pai que reclama de o filho ficar grudado ao computador, à TV ou ao videogame, mas não faz o menor esforço para oferecer nada de qualidade em troca. Qual pai oferece uma parte do dia, ou mesmo 15 minutos, de atenção exclusiva, de qualidade, a seus filhos? Esse é o ponto – avalia.

Na opinião de Tas, o “problema” do internetês é hoje superdimensionado. Ou mal enquadrado.

– É um fenômeno como a língua do pê, uma brincadeira com a língua e sua forma. Seria um excelente pretexto para os professores ganharem a atenção dos seus jovens alunos, usando os exemplos do internetês para discutir a língua propriamente dita.

Ataliba de Castilho, professor titular de língua portuguesa na USP, vai mais além e explica que o internetês é parte da metamorfose natural da língua.

– Com a internet, a linguagem segue o caminho dos fenômenos da mudança, como o que ocorreu com “você”, que se tornou o pronome átono “cê”. Agora, o interneteiro pode ajudar a reduzir os excessos da ortografia, e bem sabemos que são muitos. Por que o acento gráfico é tão importante assim para a escrita? Já tivemos no Brasil momentos até mais exacerbados por acentos e dispensamos muitos deles. Como toda palavra é contextualizada pelo falante, podemos dispensar ainda muitos outros. O interneteiro mostra um caminho, pois faz um casamento curioso entre oralidade e escrituralidade.

O internetês pode, no futuro, até tornar a comunicação mais eficiente. Ou evoluir para um jargão complexo, que, em vez de aproximar as pessoas em menor tempo, estimule o isolamento dos iniciados e a exclusão dos leigos. Para Castilho, no entanto, não será uma reforma ortográfica que fará a mudança de que precisamos na língua. Será a internet. O jeito eh tc e esperar pra ver?

fonte: desconhecida

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